A Itália de 1870

Na Itália, a imigração encontra-se ligada ao fato político da unificação em 1870. O norte da península precisou reorganizar a Itália, abolindo fronteira, suprindo tradições a fim de abrir os caminhos para a implantação de um estado moderno.

Mesmo antes de concluída a unificação, a supressão das alfândegas regionais, às ofertas de produtos industriais a preços reduzidos e o desenvolvimento das comunicações destruíram o sistema artesanal de produção. Com isso, os habitantes do campo ficaram entregues apenas a produção agrícola, contra a qual, além de vários anos de péssimas colheitas, erguiam-se obstáculos como o aumento excessivo de impostos, a concorrência de produtos estrangeiros e o boicote alfandegário de outros países.

Com a destruição da pequena indústria do tipo artesanal, cujo produto complementava a renda familiar do agriculto, a elevação dos impostos acompanhados pela redução da quantidade e do preço dos produtos agrícolas, houve uma rápida deteriorização da situação do campo, com sinais evidentes de estagnação e de regressão sócio-econômica. A grande maioria dos colonos não era proprietária de terras ou, se era, tinha necessidade de arrendar mais, afim de poder subsistir.

As emigrações em massa da Europa, no século XIX, originaram-se de fatores sócio-econômicos e atingiram as classes mais desamparadas. Atingidos por toda sorte de calamidades, desde péssimas colheitas até impostos extorsivos, os camponeses viram abrir-se-lhes a perspectiva de emigração para a América. De início, eram seguidos caminhos clandestinos para poder emigrara, este caminho era Marselha, porque o governo italiano procurava coibir as saídas; só a partir de 28 de abril de 1876 é que a emigração foi reconhecida oficialmente.

Enviados de governos e particulares percorriam o norte da Itália aliciando agricultores, a quem prometiam o impossível, descrevendo maravilhas a respeito da nova terra. Camponeses pobres ouviam descrições fantásticas, como a de que era possível que cada grão de milho produzia seis grandes espigas. O clero nas igrejas, funcionários nas prefeituras, os simples camponeses em suas conversas, sub-agentes passando de casa em casa, cartas verdadeiras ou forjadas dos que haviam partido, tudo, enfim, falava de um mundo rico e diferente. O poeta vêneto, Berto Barbarini, refere-se assim a situação dos campos, esses colonos que tem como a única saída a emigração:

Chegada de Imigrantes ao Brasil

Chegada de Imigrantes ao Brasil

“Fulminadi da un fraco tempesta,
l’erba dei prá pa’na metá passia
brusa le vigne de la malatia
che no lassa i vilani mai de pestà;
ipotecanto tutto quel que resta,
col fomento che val’na carestia,
ogni paese el ghá la so angonia
e le fameie em pelagro a testa!
Crepà la vaca che dasea el formaio,
Morta la dona a partorir na fiola,
Protestà le cambiale dal notaio,
una festa, seradi a l’osteria,
co un gran pugno batù sora la tola:
“Porca Itália” i bastiema “andemo via”.”

Enquanto uma poesia popular corre de boca em boca e será o canto de despedida no navio:

“Noi italiani lavoratori
Allegri adiamo nel Brasile
E voialtri d’Itália Signori,
lavoratelo il il vostro badile,
Se volete mangiare. (refrão)”

Vendiam-se as pequenas posses, às vezes um pedaço de terra, uma casinha, algum animal, instrumentos de trabalho, para comprar a passagem até Gênova e para a grande viagem transoceânica. E assim partiram para uma aventura num mundo desconhecido.

Trecho retirado do Livro: O livro dos meus: Família Bertelli.

Bertelli, Aureo. O livro dos meus: Família Bertelli. Porto Alegre: EST Edições; 1994.